O Último Verso do Poeta

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Para que não me esqueças qual mim a ti

Para que não duvides que o amor mata

Vou roubar-te o coração pra mim

E fazer-te carinho com uma faca.



O ultimo verso soara estranho demais. Não transparecia o real sentimento preso em seu peito. Olhava o papel a sua frente e sentia um pesar imenso, uma sensação aterradora de incompletude, de vazio. O que estava faltando? Qual a palavra que procurava? Quais as combinações e assonâncias perfeitas que estava procurando? Num acesso de raiva irracional Flavio esmurrou o tampo da mesa de mogno e depois a arremessou no chão. [INFERNO!] Precisava dar um teco. A droga já se esvaíra de seu organismo agora. O processo estava ficando cada vez mais preocupante. Dez gramas antes eram o suficiente para a brisa de uma noite. Agora não bastavam mais. Precisava cheirar vinte. Em breve seriam trinta e nesse interim seu corpo se definhava transformando-se lentamente numa massa enrugada que embrulhava os ossos. Quanto tempo fazia mesmo? A menos de um mês estava saudável esteticamente. Ainda podia olhar-se no espelho e se reconhecer. Agora parecia olhar para o instante que precedia o cadáver. [QUEM É VOCÊ, ESTRANHO?] Podia sentir o odor da própria decomposição trescalando no ar e seguindo-o, um cheiro rascante, o cheiro da morte. Como chegara a esse estagio? Haveria volta? Não, não havia. Não desde que ela o deixara para sempre. [PUTA DESGRAÇADA!] Raquel o havia laçado prometendo a almejada felicidade e depois se desvencilhara de seus braços. Deixara-o à deriva, impotente, solitário. Nem sequer havia explicado o motivo de sua partida. Soubera de um amigo a vadia estava em Milão seguindo a carreira de modelo. [PUTA!] Precisava de um teco. Abriu o envelope e despejou a farinha sobre a pia. Ajeitou habilmente a droga com um cartão de credito formando uma fileira única e uniforme. Tapou uma das narinas e cheirou a carreira inteira de uma vez. Sentiu a recompensa química no sague fazendo efeito gradualmente. Primeiro um torpor leve e em seguida uma descarga poderosa de adrenalina. Uma euforia incontrolável que fez seu coração disparar. E a realidade explodiu em seu peito como uma bomba. Raquel não havia partido havia? Não, ela não fizera isso. Ela tentara, mas aquilo não era uma opção com a qual pudesse conviver. Precisava dela. Precisava da companhia, precisava de seus beijos, precisava do sexo. Ela não podia simplesmente escapar-lhe entre os dedos como as aguas de uma corredeira escapam da montanha. Não. Agora enxergava. Só vislumbrava a realidade com clareza quando sentia a coca correr dentro de si. Aquilo o libertava. E agora via com clareza. A verdade absoluta enterrada embaixo da hipocrisia do mundo. Ela ainda estava ali com ele. No apartamento. Flavio sorriu enquanto caminhava sobre o tapete de fabricação persa. Sentiu ansiedade corroendo seu corpo. Entrou no banheiro mal iluminado do apartamento. O cheiro de lavanda parecia irradiar de toda parte. Ao ligar o comutador a luz acendeu revelando sua doce Raquel. O corpo esguio estava repousando na banheira, uma alvura quase angelical em sua pele macia. Flavio aproximou-se de sua amada num salto. “Pensei que tinha te perdido”, disse. Mas não houve resposta. Estaria chateada com ele? Abraçou-a com força, mas não foi correspondido. Foi nesse momento que ele percebeu o sangue. A poça de sangue havia preenchido um terço da banheira. Os pulsos de Raquel estavam rasgados, fendas profundas haviam sido abertas ate os cotovelos. Não! Aquilo não podia ser verdade. Flavio engoliu em seco e se afastou do corpo. O cheiro de lavanda agora havia se convertido num ranço em sua garganta. O gosto podre de bile fez cocegas em sua garganta, mas ele engoliu o vômito. Atordoado, sem norte, andou às cegas pelo apartamento enquanto tentava entender o que estava acontecendo ali. [QUE DROGA, QUE PORRA ACONTECEU AQUI?]. Mas ele sabia o que havia acontecido. No fundo de sua mente a possibilidade mais obvia era também a mais grotesca. A quanto tempo estivera se drogando? Dias? Semanas? Recordava-se de comprar vinte gramas... Não, não haviam sido vinte. Haviam comprado um quilo não fora? Haviam? Sim. Ele e Raquel. Haviam comprado um quilo na faculdade. [NÃO... DROGADROGADROGA!!!]. O que estava pensando? Não conseguia raciocinar. O ar lhe faltava. A bile retornava na garganta e descia de novo deixando o gosto amargo na boca. O poema. Precisava terminar o poema. Qual era o vocábulo que lhe faltava? O ultimo e derradeiro verso? Este não podia ser escrito em nenhuma palavra nem em português, grego ou latim. Nem mesmo em alemão. Tinha que ser escrito com sangue e sacrifício. O verso mais lírico que jamais sonhara. O vislumbre da perfeição que ofuscaria até mesmo a Deus. Sorrindo, Flavio subiu no parapeito da varando do apartamento e olhou para baixo. Escreveria ali no asfalto. O impulso do salto fez o corpo congelar, mas a queda foi breve e misericordiosa. A morte foi instantânea. A carne explodiu como um saco de arroz que se espatifa no chão. Os ossos saíram do corpo numa procissão malévola. O sangue esguichou nas paredes e carros próximos. Mais tarde os homens da prefeitura tiveram que juntar os restos com uma pá e desgrudar os pedacinhos de carne da fachada do edifício com uma mangueira hidráulica de bombeiro.


Ninguém mais pôde ler o verso.


por JORGE GUERRA

Vão pela sombra, equipe Eutanásia

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2 comentários:

  1. Excelente conto de descrições esplêndidas.

    Você tem talento... Espero mais contos!

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