Diário de um "Ex-Viciado" #9

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Depois de uma longa demora por problemas técnicos, ai está o penúltimo capítulo! E pra não correr riscos, o último já está agendado, então não deixem de ler este capítulo e claro o último na semana que vem. Abraços, Juh.

Ao chegar à loja hoje de manhã, o velho parecia ansioso e um pouco irritado. Antes que eu pudesse me desculpar e perguntar de mais alguma coisa estava acontecendo, ele me apontou o “problema”. Laís, chorosa, agarrada a um lenço, se balançando para frente e para trás como uma criança inconsolável. Aproximei-me e novamente, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela se agarrou em minha perna, se ajoelhando no chão, pedindo clemência.
- Por favor...
- Laís, nós já conversamos ontem, eu...
- Minha filha, minha filhinha, sumiu! – ela dizia em meio a soluços.
- Mas como assim?
- Eu a deixei na escola ontem, antes de vir falar com você... Ela... Ela... – parou para enxugar o nariz. – Ela... A professora disse que ela disse que eu estava próxima e correu em direção à praça... Esta praça. Mas ninguém viu ninguém sabe... Minha filhinha...
- Por que você não foi busca-la na escola ontem? Ou ligou pra alguém busca-la?
- Porque eu estava procurando ajuda, lembra?! – disse ela, agora agarrando a minha camisa. – Ajuda que você me negou e se não fosse por isso, agora ela estaria aqui, do meu lado! – Ela gritava em meio ao choro – Minha filhinha...
- Se você não tivesse tão obcecada por um caso perdido, talvez ela estivesse do seu lado mesmo. – Eu disse por fim, num tom seco que mais uma vez pareceu mais grosseiro do que eu pretendia.
- Você não vai negar o socorro de uma mãe. NÃO VAI! – ela dizia agora, na ponta dos pés, quase agarrando o meu pescoço com uma fúria nos olhos como um animal.
- Vocês façam o que quiser, mas saiam logo da minha loja. Estão espantando os clientes com essa gritaria! – disse o velho num tom alto que eu nunca havia ouvido antes, mais irritado do que nunca.
Laís saiu em silêncio, e antes que eu saísse, olhei para o velho para me desculpar, mas ele fez um sinal com a mão me alertando que mais tarde seria a nossa conversa.



“Ótimo, perdi o emprego”, era o que passava pela minha cabeça.
Começamos procurando pelos arredores, já havia se passado um dia, as chances eram mínimas, mas podia ser que alguém tivesse alguma pista. Alguns chegaram a afirmar ter visto uma menina com as características q Laís falava em meio a sussurros, mas nada que pudesse nos dar certeza. Encontramos até mesmo os homens que tentaram estupra-la no dia anterior, e eles pareceram bem sinceros ao afirmar que não haviam visto nada. Eu particularmente acho que foi um erro dar essa “bandeira”. Afinal, eles não tinham visto, mas podiam muito bem se aproveitar desta informação para nos sacanear mais tarde.
Depois de horas de procura em vão, vi uma raiva crescer dentro de Laís, após uma desconfiança.
- William. Foi ele, só pode ter sido ele. – Ela dizia de cabeça baixa.
- Acho pouco provável, seria arriscado pra ele se esconder com uma criança.
- A menos que ele não esteja escondido sozinho e sim com outra mulher. – Laís dizia cerrando os dentes e os punhos.
- Mulheres são definitivamente loucas. Você consegue ter ciúmes enquanto a sua filha está desaparecida?
- Eu... – ela pareceu pensativa, como se realmente tivesse perdido o controle. Ainda sim, a ideia parecia fixa em sua mente. – Vamos atrás dele, buscar minha filha. Só pode estar com ele, é nele que ela confiava depois de mim.
Tentei argumentar, mas não houve jeito. Quando dei por mim, estava num carro alugado, com a Laís escondida no banco de trás, indo em direção ao bairro caindo às pedaços, que escondia um enorme casarão onde, para entrar, era preciso ter autorização no portão.
- Quem é? – respondia uma voz metálica de um aparelho com marcas de poeira e mofo no portão.
- Um amigo.
- O que você quer? Esse amigo tem nome? – respondeu novamente a voz metálica.
- Olha, eu não estou a fim de perder tempo sabe... Eu... – resolvi falar aquilo que a muito não falava e as palavras saíam da minha boca como espinhos. – Eu... Eu trouxe o taco de beisebol.
Por alguns minutos não ouvi nada mais que ruídos e então o portão se abriu. Quando passei com o carro pelo portão, ouvi a voz metálica dizer enquanto se afastava “E eu trouxe o álcool”.
- Ele reconheceu. – disse, pensando alto.

- Reconheceu o que? – disse Laís ainda escondida.
- Nada. Fique quieta. – eu disse por fim quando parei o carro próximo do acesso à porta. Laís não sabia de todos os códigos, o que era bom, assim poderia conversar com as linguagens antigas e ela nunca entenderia.
Entrei na casa, a porta velha rangia. Ele estava sentado no tapete, no meio da sala, revirando alguns livros com um olhar ansioso.
- Eu...
- Olha, eu preciso sair do país, aquele dinheiro que você me deu já vai quebrar um galho. E eu consegui mais por ai, então nem vou precisar pedir mais. Isso não é ótimo? – Ele dizia apressado, atropelando algumas palavras. Parecia um viciado em abstinência.
- Eu preciso te perguntar uma coisa... Eu... – antes que eu pudesse terminar, fui interrompido pela voz estridente e irritada de Laís. Ela entrou tão rápido que quando percebi já estava no meio da sala entre mim e ele.
- ONDE ESTÁ A MINHA FILHA?
- Como assim onde está? Está com você. – William se levantou subitamente ao ouvir falar da filha.
- Não se faça de bobo, você a pegou! Onde ela está?!
- Você PERDEU A NOSSA FILHA? – William agora estava irreconhecível, falando mais grosso que o seu tom normal, e numa altura que fazia a sala vazia vibrar.
- Eu não perdi. Você que a sequestrou. Me devolve ela! – Laís agora ia pra cima dele, dando murros em seu peito.
Ele agarrou seus punhos de repente. Ela olhou assustada, e logo viu um punho fechado indo na direção do seu rosto. Ela caiu no chão com uma das mãos no rosto. William havia soltado uma de suas mãos, apenas para acertá-la no supercílio, mas acertou um pouco abaixo do olho. Antes que ela se levantasse ele a chutou no estômago, e depois montou em cima dela e começou a segurar seus ombros com força, chacoalhando-a enquanto falava.
- Eu te dei meu único tesouro e você o perdeu! Sua maníaca, você matou nossa filha não foi?
Ela não conseguia responder, apenas chorava e quando tentava formar palavras, recebia um soco. Pensei na remota possibilidade de Laís ter realmente cometido o crime. Mas não, ela estava comigo. Tentei conter William e conta a história pra ele. Mas o ódio o cegou de tal forma que ele agora me acusava de ser um amante. Consegui tirar Laís, toda machucada de lá, e lembrei que se a menina correu para praça, apenas uma pessoa poderia saber para onde ela poderia ter ido e dar pistas concretas.
Já estava anoitecendo e a loja já devia estar fechada, porém ainda havia uma luz fraca na livraria. Talvez ele estivesse me esperando para conversarmos, mas estava tudo em silêncio demais. Entrei o mais silêncio que pude, e deixei Laís dormindo no carro.
A loja realmente estava vazia, porém consegui ouvir alguns ruídos vindos do banheiro. Esgueirei-me entre as estantes de livro, e então, dei um toque na porta, que estava levemente aberta. Parecia que aquela era a hora da conversa.


juhliana_lopes

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