Diário de um "Ex-Viciado" #8

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Hoje está chovendo desde a madrugada, e nem tinha previsão pra isso. Na verdade, poucas pessoas conseguem acertar previsões do tempo, e mesmo quando acertam, nunca acontece na hora que elas falam. Odeio dias chuvosos, me trazem lembranças doloridas, e como um para-raios que sempre atrai um raio, eu sempre acabo atraindo algo ruim.
Não consegui dormir a noite pensando na esposa de William, e naqueles olhos da filha dele. Não que eu estivesse cobiçando a mulher, mas ela era como um fio solto do passado, daqueles que a gente corta numa roupa, mas eles sempre aparecem de novo. No caso dela, nunca precisei “cortá-la”, mas de certa forma cortei o Will, mas ele voltou, e acompanhado e agora além dos meus preciso encarar mais fantasmas.




Passei a noite pensando nisso. Em tudo que aconteceu e me veio mais uma vez aquele desespero de pensar “será que vou conseguir?”. Eu não quero ter que fazer mal a ninguém novamente, mas também não quero ter que encarar tudo que eu já superei novamente. Sinceramente, acho que vou mudar de cidade, de estado, até mesmo de país. Talvez assim fosse mais fácil esquecer a minha vida de antes. Criar uma nova vida, um novo lugar, um novo eu, e tratar a antiga como se não passasse de um pesadelo ruim.
Não. Não adiantaria. Outros amigos tentaram fazer isso, e logo o passado estava de frente com eles de novo fazendo a cobrança. Talvez seja isso, o passado me cobrando, afinal eu não iria prestar contas somente com a polícia. Não há como prestar contas apenas para a justiça quando além de vidas, a sentimentos destruídos.
Em todo caso ainda tenho a livraria, ou pelo menos ainda acho que tenho. Eu pensei que hoje seria um dia normal tirando a chuva, um dia entediante como todos os outros, porém, eu estava errado, muito errado.
Joguei uma água fria no rosto e vesti uma blusa grossa. Não curto muito usar guarda-chuva, então coloquei uma roupa extra dentro de um saco plástico e guardei na bolsa. Segui pelas ruas encharcadas onde a água caía pesada. A rua ainda estava escura, acho que acabei saindo mais cedo achando que estava atrasado. Havia um grande movimento de pessoas nos pontos de ônibus, aquelas que só são vistas bem cedo e depois à noite voltando cansadas. Aquelas pessoas que a gente nunca sabe a história delas, mas sabe que é tão sofrida quanto a nossa.
Um carro passou apressado por mim e acabou jogando água, me deixando ainda mais ensopado. Nunca entendi qual o motivo dos motoristas jogarem água nos pedestres. Eu entendo que a maioria é sem querer, mas parece meio sádico isso quase sempre acontecer. A maioria das pessoas apenas fala mal enquanto o carro desaparece no horizonte, mas no meu caso, eu não ofendi ninguém, e nem o carro desapareceu. Na verdade, ele parou logo à frente.
De dentro, apressada saiu uma mulher magra e pálida com um guarda-chuva quebrado, virando o salto algumas vezes na calçada irregular e gesticulando com uma das mãos. Pediu-me desculpas e perguntou se eu queria uma carona, disse que poderia me levar onde eu quisesse. Agradeci a gentileza, mas disse que não era necessário. Ela insistiu e mais uma vez recusei, dizendo que preferia andar já que eu estava próximo do meu trabalho, porém adiantado. Meio frustrada com a recusa, se desculpou mais uma vez e seguiu seu caminho.


Caminhei mais alguns metros e então cheguei à livraria. A chuva diminuiu limitando-se a uma garoa fina daquelas que só servem para deixar tudo molhado. Antes que eu pudesse abrir a porta com a minha chave, senti alguém tocando meu braço. Novamente ela estava perto demais e falava quase sussurrando.
- Estava te esperando.
- Como assim? O que você quer Laís? Já disse que não posso ajudar seu marido e que não sei onde ele está.
- Eu sei que não sabe, por isso preciso que me ajude a chegar até lá. Acho que sei onde ele está, mas ele não vai deixar eu me aproximar... Preciso que você dirija o carro, apenas isso, olha vai ser fácil, você só precisa...
- NÃO! – soou mais grosseiro do que eu esperava, tanto que Laís arregalou os olhos quando falei – Desculpe... – abaixei a cabeça – Eu não posso ajudar...
- Lógico que pode, não há nada que te impede afinal, você...
- Eu não quero ajudar. É isso que me impede. Vá embora, por favor...
Ela me olhou, agora tinha os olhos cheios de água e não era por causa da chuva. Abriu a boca como quem ainda quer falar alguma coisa, mas desistiu. Confesso que me senti culpado, mas eu não podia realmente fazer nada. Ainda era cedo, então invés de abrir a livraria, resolvi dar mais uma volta, mesmo com o tempo úmido.
Andei por ruas que eu não conhecia, vi pessoas diferentes e todo tipo de lojas. Não sabia que o comércio era tão agitado nas ruas de trás, e muito menos que era tão variado. Eu deveria ter voltado para a livraria, mas quando dei por mim, vi que Laís estava num beco, conversando com dois caras, gesticulando com as mãos como quem implora por algo. É claro que ela não ia desistir, mas ela estava escolhendo as pessoas erradas para pedir ajuda.
Até agora não entendo por que eu fiz, mas sei que quando os caras estavam cercando, para pedir um “favor a mais” para fazer o que ela pedia me aproximei e a chamei pelo nome. Eles olharam irritados, e então sem dizer nada a puxei pelo braço, e logo estávamos indo para direção contrária daquele lugar. Ela, olhando toda hora para trás perguntou o que foi. Olhei para a cara dela e perguntei da forma mais irônica possível se ela não havia reparado no que havia acontecido e se ela gostava de ser estuprada. Como quem leva um soco no estômago ela parecia não acreditar no que poderia ter acontecido e então se deu conta de como estava agindo por impulso como se acordasse de um transe.
Conversamos o dia todo e ambos esqueceram-se de suas obrigações. Quando dei por mim já estava anoitecendo e ela começava a cair no meu ombro de sono. Afastei-me e disse que precisava ir. Ela também foi embora, mesmo sonolenta e entrou no carro. Eu deveria ter me oferecido para dirigir, mas sabia muito bem onde isso poderia dar e então me afastei o mais rápido daquele lugar e segui para casa.

Fui dormir me sentindo mal mais uma vez. Uma por não te ajudado, e outra por ter faltado com o velho. No entanto, posso reparar meu erro amanhã e espero eu que tudo volte ao normal... 

juhliana_lopes

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