Diário de um "Ex-Viciado" #6

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Pior que ter que conviver com meus próprios anseios é perceber que não se está sozinho... Duplamente. Confesso que já estava ficando acostumado com minha vida pacata, de trabalhador e casa, sem problemas. Tendo que aguentar pessoas mal educadas e sendo compensado pela ótima educação de outras.
Não que eu estivesse virando um santo, mas era bom dormir com a sensação de não ter nenhuma culpa a mais com que lidar. É bom dormir sem ter que fugir quando acordar. Eu estava conseguindo um nível de controle tão bom que tinha momentos em que eu quase me esquecia de que um dia fui capaz de fazer mal a alguém.
Nem tudo são flores, sobretudo na vida de alguém que tem tanto sangue nas mãos. Assim como todos os dias, eu estava a caminho do trabalho, e então, antes de chegar ao meu destino, senti alguém nas minhas costas. Olhei para trás depressa, mas não havia mais do que algumas pessoas andando apressadas para seus trabalhos como todos os dias. Continuei andando, um pouco desconfiado e foi quando vi uma sombra se mover pelo canto do olho, parei subitamente. Senti quando um corpo pesado esbarrou em mim, perdendo o equilíbrio e caindo de costas no chão. Não me dei o trabalho de olhar quem era e segui meu caminho, mas senti algo puxando a perna da minha calça e então fui obrigado a olhar para baixo.




Foi como se o mundo estivesse abrindo um buraco e tudo debaixo dos meus pés estivesse se desfazendo pouco a pouco. Aqueles olhos, novamente me encarando e agora humilhados, jogado ao chão, me mostrava um passado que parecia tão distante, mas ao mesmo tempo era tão recente, quase como o presente.
Sentamos num bar próximo, ele olhava para os lados assustado, pálido, parecia mais magro, porém seu rosto estava levemente inchado do lado esquerdo. Uma surra talvez? Seus olhos eram fundos, e com a pele suavemente escura ao redor, o que indicava muitas surras por sinal. Não me questionou sobre porque eu estava solto, nem porque estava ali àquela hora. Também não questionei sobre sua visita repentina, afinal, não me interessava.
William era um dos caras com quem na juventude, matava no grupo. Meio medroso, mas ótimo com cirurgias. Seu pai havia o obrigado a seguir os negócios da família e assim ele acabou se especializando em algumas áreas da medicina, sobretudo, o que envolvia anatomia e cortes.
Conhecia os melhores produtos para limpeza, e tinha muitos contatos. Quando a coisa toda explodiu, ele foi um dos primeiros a desaparecer. Quando fomos atrás dele, achando que ele tinha matado um dos nossos depois da morte do primeiro, vimos que ele estava casado e com um consultório particular. Sonho do seu pai, esposa escolhida por seu pai, local escolhido pelo pai... Era o menino do papai.
Agora estava ali, como um lixo, sujo e mal lavado, com o rosto inchado, implorando uma esmola, - sim, pois considerando o que ele ganhava como médico, o que ele estava me pedindo entre lágrimas não passava de esmola.
Eu não tinha o dinheiro todo naquele momento, mas ele disse que não fazia mal e aceitava o que eu pudesse dar pra ajudar. Entreguei o dinheiro, porém, mais por questão de humanidade do que por interesse, perguntei seu objetivo. “Preciso fugir...” disse enxugando o rosto da várias lágrimas que estavam brotando do seu rosto novamente. Perguntei novamente porque, afinal, talvez ele precisasse desabafar... “Eu matei... Acabou eu o matei... MATEI MEU PAI!” Disse por fim, gritando, segurando minha camisa. Depois, olhando em volta assustado, como quem fala demais, se encolheu como uma criança quando vai levar uma bronca. Por sorte as poucas pessoas que estavam no local não deram atenção aos devaneios de um maluco sujo. E eu não me surpreendi. Entreguei o dinheiro, paguei a conta do café e me levantei para sair, quando ele levantou os olhos e disse quase soluçando: “não vai falar nada?”. Não havia nada para eu dizer. Apenas que já o vi chorar menos por um morto, mas como era família, talvez fosse normal, mas estava parecendo um amador. Respondi que não precisava dizer nada, afinal, não poderia fazer nada, e nem assumir a culpa por ele.


Fui embora com o coração pesado, afinal, fazia muito tempo que não via ninguém das antigas e era muito pesaroso saber que alguns estavam entrando em situações críticas, tanto quanto as dele.
Quando cheguei, a livraria estava meio fechada. Estranhei, afinal, pelo horário e considerando meu pequeno tempo de atraso, já era para aquele velho chato ter aberto o local, porém como as luzes estavam acessas, imaginei que estivesse me esperando ou esperando alguma encomenda. Como de costume, empurrei a porta para entrar, mas estava trancada. Peguei a chave e abri suavemente como costumo fazer quando está tudo apagado, afinal, cautela é algo que não se perde, mesmo não fazendo nada de errado.
Sentando em um banco, o velho chato, porém ao lado, uma menina com uniforme escola de frio (calça de moletom e blusa grossa com cores vivas da escola), de quatro no chão sobre um livro grande, procurando outro que aparentemente havia caído embaixo da estante. Estranhei que os dois estavam tão distraídos em busca do livro que não perceberam a minha chegada e eu nunca tinha visto aquela criança ali antes.
Quando se deu conta de minha presença, soltou um “céus” meio exagerado, e num pulo de susto, se levantou e falou apressado para eu pegar o que a menina estava procurando. Abaixei-me, peguei e quando entreguei o livro a menina, ela sorriu com um dente faltando. Um dente de leite provavelmente. O velho, já estava no balcão dizendo até logo antes mesmo da menina se manifestar em sair do local.
Quando ela foi embora, ouvi um suspiro disfarçado, mas que era claramente de alívio. Ele estava suando e era a primeira vez que o via tão frágil. Nem mesmo quando aquele ladrão entrou ele ficou tão abalado.
Perguntei se estava tudo bem, e ele respondeu com a cabeça que sim, e soltou um “obrigado” quase como uma súplica. Parei na sua frente e perguntei novamente se estava tudo bem, e ele olhou nos meus olhos. Aqueles olhos pesados e cansados eram os mesmo, sempre enigmáticos. Ele respondeu mais uma vez que sim, e me respondeu num tom áspero: “Nunca mais se atrase... Por favor... Pode não dar tempo da próxima vez...”.
Confesso que fiquei confuso, mas ele não deu mais abertura para nenhuma pergunta e ao longo do dia, voltou ao velho simpático e com sua bondade extremamente irritante... Não sei se perdi algo, mas seja o que for não consigo mais dormir tão bem à noite. Ver William me deixou muito abalado mesmo eu disfarçando bem. Mas acho que isso ainda não é tudo... 

juhliana_lopes

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