Diário de um "Ex-Viciado" #5

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Uma coisa que eu posso dizer é, como é bom ter uma “vida”. Esse emprego foi a melhor coisa que eu poderia ter conseguido, e o meu chefe, o senhorzinho simpático, é realmente extremamente simpático, e tem a mente muito aberta também. Claro que eu evito muitas conversas, mas ao observar ele conversando com as outras pessoas, percebo que ele fala sobre muitos assuntos, reservando a sua opinião para aqueles que realmente têm conhecimento sobre.
É muito bom ter a voz da experiência ao meu lado, mesmo que a maioria dos conselhos não seja diretamente pra mim, ouvir as coisas que ele diz me mantém calmo e seguro. É como me sentir quase em total liberdade, mas ainda há muito que trabalhar em mim mesmo, e estar no meio dos livros, e com uma companhia tão adorável, está sendo o melhor tratamento psicológico que eu já tive.
É claro que eu vivo uma mentira, afinal, o senhor pensa que eu sou apenas um drogadinho que passou um tempo numa clínica de reabilitação e agora busca uma nova oportunidade. Ele não sabe, não desconfia e nunca vai saber imagino eu, toda a verdade. Tenho medo de perder o controle ficando tão próximo de alguém assim, tanto para a segurança dele como de qualquer um que possa ter a brilhante ideia de ameaça-lo na minha frente. Eu sinceramente não gosto de ficar pensando nisso, mas é apenas um fato previsível.




Ainda sim, esta convivência está me fazendo muito bem. Até passei por um momento digamos, mais tenso esses dias, mas algo naquele homem conseguiu me controlar. A situação foi a seguinte: Estávamos quase fechando o sebo, quando um homem sujo entrou de uma vez exigindo o dinheiro do caixa. O senhor apenas o olhava, e eu apenas pude ficar parado. O homem berrava e quando ele tirou uma arma, eu dei um passo a frente. Minha mente estava mil, era só ele dar o mínimo movimento mais brusco que eu o atacaria ali, sem nenhum pudor e arrancaria a cabeça dele com minhas mãos se algo acontecesse com o senhor.
Antes de ele gritar novamente exigindo o que não era dele, o senhor levantou as mãos e disse num tom irritantemente calmo: “Não precisa disso rapaz, você sabe que não vai a lugar nenhum”. O rapaz tremia, e olhava confuso para aquele idoso que só podia estar zoando com a cara dele. O senhor então olhou pra mim com olhos de quem diz: “não se mexa”.
O rapaz então tentou atirar, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, dois policiais entraram na loja e rapidamente o renderam. Eu fiquei ali parado, pensando na merda que eu iria me meter novamente caso tivesse ido em frente.
O velho me explicou: Já havia sofrido alguns assaltos, então resolveu colocar um botão de emergência atrás do balcão que ele mantinha disfarçado. Quando precisava de ajuda, apertava e fala qualquer coisa sempre terminando com “você sabe que não vai a lugar nenhum”, desta forma, os policiais sabiam que a chamada era verdadeira e não um acidente por ter apertado um botão errado e que a pessoa em questão estava armada. Até então, sempre que precisaram, os policiais vieram rápido, uma vez que há um posto próximo e a chamada vai direto pra lá.
Aquele velho realmente tinha suas artimanhas, mas ainda me intrigava ele confiar tanto na polícia, então ele me contou com uma piscada de olho que tem um plano B caso a polícia não apareça a tempo: Um revólver também escondido, no tampo falso da gaveta. 
Realmente ali, estava alguém com quem eu tinha muito a aprender. Aquele dia poderia ter terminado como qualquer outro, ou quase, se não fosse o assalto, mas seja lá o que for eu deixei transparecer alguma coisa, ou talvez tenha sido apenas uma interpretação errada que eu tomei do comentário dele, que disse que assim que fechamos a loja: “Olha filho, seja lá o que você esconde ai, você não parece ter medo de colocar pra fora quando é preciso, você tem medo de colocar pra fora quando não é necessário. Isso é bom, faz você ter cuidado em você mesmo, mas você está tendo mais cuidado nos outros que em você. E isso é ruim.” Confesso que na hora fiquei imaginando se ele já teria ficado sabendo de tudo, se tinha puxado a minha ficha e descoberto minha pequena falsidade no nome, mas aparentemente foi mais desses conselhos que os velhos gostam de dar sobre a vida, pois ele fez questão de terminar com: “E mesmo sendo grande, você não pode ser um valentão pra defender a mocinha, até porque eu não sou uma mocinha, sou tão macho como você e sou mais velho, então ainda sou o alpha. Da próxima vez, não se mecha e deixa tudo comigo”.
Confesso que aquela noite, eu não consegui dormir achando que me segredo havia sido descoberto. Ainda pensei em nem ir para o trabalho aquele dia, mas não podia deixar transparecer nenhuma culpa maior do que a mentira que havia “confessado”. Qualquer atitude diferente entregaria o disfarce, e no fim das contas me convenci que ele só disse aquilo ainda por achar que eu era um drogadinho agitado.
No outro dia, minha teoria havia tecnicamente sido confirmada, uma vez que ele nem tocou no assunto, e tivemos um dia normal como todos os outros. Nunca conversei com ele sobre família, afinal nunca se quer mencionei a minha, porém acho que ele deve ter algum problema com a dele, pelo menos em relação a crianças, uma vez que ele dá certa atenção a elas, mas nada além do limite como a maioria das pessoas faz ao agradar, e dar aquela atenção diferenciada. Esta foi à única coisa que eu reparei de diferente nele, pois de resto, ele é como qualquer idoso normal.
Alias, tirando o fato da sua “proteção” antecipada, ele é como qualquer idoso normal, daqueles que dão raiva de tão serenos que são. Como num dia anterior quando uma moça apareceu e eu a atendi normalmente. Ela ao sair, olhou pra mim de uma forma tão intensa que eu me senti frágil como se tivesse sido completamente invadido, ela, apenas sorriu e deu uma leve piscada, deixando o cabelo loiro voar ao vento que entrou quando abriu a porta para sair. Logicamente fiquei um tanto sem graça, e puto ao mesmo tempo quando olhei para cara daquele velho e ele estava rindo como um imbecil. “O que foi?” eu perguntei seco. Ele respondeu ainda com aquele sorriso irritante no rosto: “Nada, apenas o amor que passou por aqui, ou pelo menos uma tentativa dele...”. Ignorei e ainda pude ouvir suas risadas irônicas ao longo daquele dia.

A verdade é que eu nunca me senti tão vivo, mesmo mentindo, e ainda que isso me custe à confiança dele, eu acredito que continuarei mentindo por muito tempo, apenas para continuar me sentindo alguém, mesmo que não seja o verdadeiro eu. Só não seu por quanto tempo...


juhliana_lopes

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Um comentário:

  1. Estava quase indo dormir quando cliquei num link que me chamou a atenção e desse link fiquei mais de uma hora lendo, muito legal essa história me fez relembrar a época de quando gostava de ler livros de historinhas.

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