Diário de um "Ex-Viciado" #4

1 Comentario
Bem, confesso que hoje estou um pouco confuso. Pode não parecer, mas é difícil administrar essa coisa toda. É extremamente horrível ir contra seus desejos e ignorar seus anseios, mas aos poucos estou conseguindo. Desde que saí daquele lugar horrível, acho que já são mais de três anos “limpo”. Pode ser mais ou menos, eu não parei pra contar o tempo direito, afinal, é uma parte da minha vida que eu sinceramente preferia esquecer.
Ainda sim, mesmo de consciência “tranquila”, é difícil lidar com sensação que algo pode explodir a qualquer momento. Só de pensar que tanta coisa podia ter sido diferente, porém ao mesmo tempo me vem à cabeça que se fosse diferente, não seria eu.
Lembro que quando meu grupinho chegou a cinco pessoas, os massacres aumentaram. Perseguíamos, vigiávamos duas, três, cinco pessoas ao mesmo tempo, afinal, cada um tinha que trazer pelo menos um nome em potencial. Conseguíamos observar toda rotina da pessoa, pessoas próximas, familiares entre outras informações que sempre se tornavam úteis para nós. Conforme a gente elaborava os planos, as soluções para despistar ficavam em níveis cada vez maiores.





Ou era acidente, ou conseguíamos deixar transparecer que foi outra pessoa, sobretudo quando sabíamos que aquela pessoa havia brigado com alguém recentemente. Aprendemos a limpar o cenário, deixando o mínimo de vestígio possível e claro, uma marquinha quase invisível como uma assinatura de uma obra de arte. Para nossa sorte, (ou azar), quase ninguém conseguia identifica-las, e depois de muito tempo, a polícia conseguiu associar uma marca a outra.
Tudo ia bem, até que um dos nossos morreu numa jogada errada. Confesso eu que aquele talvez tenha sido o estopim para que tudo desse errado dali pra frente. Às vezes penso também que aquela foi à solução, pois se não fosse aquela fatalidade, talvez ainda estivéssemos por ai matando sem parar.
O cara nem era tão meio amigo assim, estava mais pra colega, porém quando por causa da morte dele, acharam o meu amigo da internet e o levaram para a prisão, eu fiquei louco. Bolava mil planos para libertá-lo, mas logo ele morreu “acidentalmente” e minha raiva aumentou de tal forma que todos os envolvidos na prisão dele morreram misteriosamente. Eles nem tinham culpa, estavam cumprindo a lei, porém o “desejo de justiça” sob o meu ponto de vista falou mais alto.
Agora, estou aqui tentando me controlar, e sentindo cada vez mais o peso do meu passado em minhas costas. Digo mais uma vez, é horrível sentir isso.
Mas o fato da minha confusão não é somente este peso e sim algumas coisas que acontecem ao longo dos meus dias “escondidos”. Enquanto a maioria das pessoas mal me encara e as poucas que sabem de mim morrem de medo, há aqueles que não me conhece e sem nenhum motivo aparente são gentis comigo. Talvez seja por não me conhecerem que consigam ser tão boas, pois se soubessem que eu sou não ficariam tão perto de mim.
Finalmente consegui um emprego. Nada escandaloso na verdade, algo simples, da forma que minha vida deve ser agora. Peço desculpas pelas minhas linhas confusas, às vezes mudando de assunto sem nexo, mas é algo que eu acho interessante comentar, porém ainda estou organizando as ideias em minha cabeça.
Vou começar a trabalhar amanhã em um pequeno sebo no centro da cidade. Na verdade, o lugar parece ser tão antigo que eu mesmo já passei diversas vezes em frente e nunca notei nada. O dono do lugar é um senhor simpático que me acolheu da melhor forma possível.


Ele perguntou de onde eu vim e o que fazia claro que dei algumas respostas vazias, afinal, não quero assustá-lo e muito menos perder a minha única chance de emprego antes mesmo de começar. Mas algo naquele senhor me faz pensar que talvez eu devesse contar logo a ele e quem sabe dividir um pouco desse peso com alguém. Ainda sim não posso arriscar, ainda não, não quero viver aquele pesadelo de novo e nem ter que mata-lo para que ele fique quieto...
Penso nos meus dias, em tudo que já conquistei até aqui e imagino se eu me tornei alguém normal ou apenas finjo que sou. Tenho minhas culpas que se misturam com vontades, mas ainda sim vivo como se nada tivesse acontecido, como se... Nada fosse acontecer.
Lembro-me bem do gosto que vinha a boca quando percebia que a pessoa havia dado o último suspiro. Aquele gosto azedo vindo do estômago, misturado com o amargo da língua que se contraía junto aos dentes cerrados, amplamente mostrados em meio a um sorriso cruel e até mesmo assombroso. Minhas feições completamente contorcidas, como se demonstrassem um êxtase misturado ao mais profundo nojo. O sangue quente que por vezes jorrava em minhas mãos, me deixando com a sensação de um artista que acabou de terminar um quadro e está com as mãos sujas de tinta.
Mas não, nunca mais sentirei isso, nunca mais me entregarei a isso, nunca mais... Me sentirei feliz.

Não, aquilo não era felicidade, não pode ser, e eu ainda vou descobrir o que eu preciso fazer para descobrir a felicidade de verdade.


juhliana_lopes

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Um comentário:

  1. "... e eu ainda vou descobrir o que eu preciso fazer para descobrir a felicidade de verdade."
    Sexo, muito sexo. Bom sexo faz uma pessoa feliz. Melhor, faz duas pessoas felizes. E faz novas pessoas.
    Em vez de tirar vidas, faz vidas!

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