Diário de um "Ex-Viciado" #2

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É incrível como me fazem sempre a mesma pergunta: "Você tá brincando não é?" E porque eu estaria? Existem tantas pessoas tão insanas por ai que acham engraçado brincar com esse tipo de coisa?
Eu, no começo, achava engraçado. Tudo era uma piada para mim. Desde o momento quando eu planejava até durante a execução. Pura diversão, "melhor do que lasanha" como diziam meus amigos. Mas eu não gostei de ficar sozinho.
No começo, encontrei muita gente que compartilhava do mesmo gosto, e dos mesmos desejos. Havia até manuais que nos ajudavam em nossas conquistas. Mas nada disso pode me segurar, pois depois de conviver tanto tempo com pessoas que gostos iguais e de se sentir enfim acolhido, o desejo ultrapassou a carne e logo só havia eu.
Enquanto a maioria encara como uma piada de mau gosto, os poucos que levam a sério se revoltam mais não com o fato de eu ter matado muitas pessoas (e quando digo muitas, são muitas mesmo), elas se revoltam por eu não ter sido condenado e sim, encarado como um doente, levado para um hospício e que já está livre para fazer tudo de novo segundo a concepção deles.




Eu também concordo que eu deveria estar na cadeia, afinal, causei muito sofrimento a muitas famílias, porém, eu acabei me tornando uma vítima de mim mesmo, e me diagnosticaram como um louco que fazia as coisas sem verdadeira intenção, apenas levado pelo desejo. Fiquei alguns anos internado, e depois me soltaram quando avaliaram que eu não oferecia mais risco.
Deixe-me contar um pouco sobre este processo de ser preso e logo depois internado. Enquanto preso, eu fiquei muito violento e não podia nem sentir um olhar para mim que já queria bater e exterminá-lo com minhas próprias mãos. Quando viram que a coisa estava perdendo o controle, me colocaram então numa sala separada, mas eu ainda me sentia um bicho feroz que foi enjaulado.
Encapuzaram-me, amarraram e me levaram de carro para outro lugar que eu só descobri depois que era um manicômio. Naquela época, eu me tornei mais fechado, calado, e naquele lugar descobri que havia outros da mesma forma. Lembro, que no dia que eu cheguei, fiquei num quarto ao lado de um cara que assim como eu havia sido trazido à força. Ele urrava e estava tão violento quanto eu, só que ele tinha mais força, capaz de jogar enfermeiros para longe. Largaram-me naquele quarto imundo, fecharam a porta e correram para o quarto ao lado, pois a situação estava cada vez pior. De repente, ouvi um silêncio. Pensei em gritar também, chamar atenção, pois comecei a me sentir sozinho como uma criança esquecida no mercado.
Notei quando todos saíram daquele quarto e logo depois uma médica entrou no meu. Mais tarde descobri que ela, era a responsável por 90% das recuperações de internos violentos, pois por algum motivo, ninguém a machucava ou conseguia assustá-la. Ela também não permitia agressões contra os internos, como alguns enfermeiros haviam feito com aquele que estava gritando, e eles também receberam ordens expressas para não fazerem nada comigo.
Nós conversávamos muito, tanto sozinhos como em conjuntos com os outros internos. Ela me lembrava a minha mãe às vezes, que era dura, mas ainda sim compreensível. Ela podia dar várias broncas em mim e em meus irmãos, e até mesmo bater na gente de vez em quando, pois às vezes ultrapassamos os limites e aprontávamos bastante, mas jamais permitiu que ninguém além dela fizesse isso conosco, nem mesmo levantar a voz.
Esta médica que me fez perceber o quanto eu estava sozinho e precisando de ajuda. Posso dizer que no início, estava até apaixonado por ela, mas assim como eu, todos estavam, mas não era por ela, e sim pelo que ela representava pra gente.
Lembro-me do dia em que num acesso de fúria, quase matei um enfermeiro. Ela apareceu e não disse nada, apenas me olhou. Eu estava dando uma chave de braço no cara e ele já estava começando a ficar roxo. Ela me olhava no fundo dos olhos e pegou lentamente sua prancheta e começou a anotar qualquer coisa. Fiquei mais nervoso, era como se ela não tivesse ligado e me lembro de ter gritado: "Você não vai fazer nada? Não vai falar nada? Vai me deixar matar ele aqui, na sua frente?". Ela, uma mulher forte, apenas suspirou e respondeu: "Faça o que você achar certo. Se quiser matar, mate, mas saiba que isso não vai fazer você sair daqui e ter uma vida normal como você tanto deseja. Isso também não vai me fazer ter raiva de você. Isso apenas vai fazer você continuar aqui e ser dopado mais vezes do que o habitual.".
Um golpe certeiro que me fez soltar o cara na hora. Não foi nada demais, mas foi o suficiente para que eu me tornasse aquela criança carente de novo.
Com os encontros de grupo me tornei mais comunicativo, e participando das oficinas, aprendi muitas coisas. Sinto falta daquele lugar apesar de tudo. Muitas pessoas não se acostumariam, pois da mesma forma que há pessoas que só precisam descansar, há pessoas que realmente estão mal e que não vão mais sair dali. É preciso ter paciência e, sobretudo compaixão.
Há também aqueles que mesmo sendo considerados loucos, se acostumaram com isso e convivem bem com esta condição. Há também aqueles que escondem tão bem seus desejos, que se passa por normais sem problemas e poderiam muito bem já ter saído dali, mas preferem ficar, pois gostam daquele lugar. Até os médicos se tornam meio loucos, como um que conheci que tinha muitos amigos e sempre uma história interessante pra gente.

Quando sai, me senti livre finalmente, um novo Arthur, mas como se faltasse algo. Eu sabia o que era, e tinha que lutar contra mim mesmo para que eu não completasse aquele buraco que estava faltando. 

juhliana_lopes

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